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Fraude de imagem em seguros: as sete modalidades que chegam à mesa de quem regula o sinistro

A foto é o principal instrumento de prova num sinistro — e é por isso que ela virou o principal alvo de quem frauda.

Por Everaldo Moraes · 3 de outubro de 2026

Quem regula um sinistro decide a partir de fotos. É delas que parte a análise do ajustador, o laudo do perito e, no fim, o pagamento ou a negativa. Essa centralidade explica por que a imagem se tornou o ponto onde a fraude compensa: alterar uma foto custa minutos e não exige conhecimento técnico, enquanto conferi-la depois custa perícia, tempo e, muitas vezes, não chega a uma conclusão.

Os números do mercado brasileiro

A CNseg mantém desde 2004 o Sistema de Quantificação de Fraudes (SQF), alimentado pelas próprias seguradoras. O 23º Ciclo, referente ao 1º semestre de 2025, traz:

Indicador1º semestre de 20251º semestre de 2024
Sinistros ocorridos~R$ 22 bilhões~R$ 19,2 bilhões
Sinistros suspeitosR$ 3,36 bilhões (15,1%)R$ 2,3 bilhões (12%)
Fraudes comprovadasR$ 734 milhõesR$ 504 milhões
Comprovadas sobre ocorridos3,3%2,6%

O que este número mede, e o que ele não mede

Essa leitura é a parte que costuma se perder quando o valor viaja sozinho. Os R$ 734 milhões são fraude comprovada de todos os tipos, em todos os ramos cobertos pelo levantamento — que exclui Saúde Suplementar, Capitalização e Previdência Complementar. O relatório não decompõe o valor por vetor: não há, nele, uma linha que diga quanto da fraude passou por uma imagem adulterada.

Então o número não é o custo da fraude de imagem. Ele serve para outra coisa, e serve bem: mostra que a fração comprovada subiu de 2,6% para 3,3% dos sinistros em um ano, e que apenas 21,8% do que foi classificado como suspeito chegou a ser comprovado. A distância entre suspeitar e comprovar é exatamente o espaço em que a fraude por imagem opera.

O que se edita numa foto de sinistro

Um arquivo JPEG não carrega prova nenhuma sobre a própria origem. O nome do arquivo, a data gravada nos metadados EXIF e as coordenadas de GPS são campos de texto, editáveis em segundos com ferramentas gratuitas que já vêm instaladas na maioria dos sistemas.

Um arquivo com data, hora e local “corretos” pode ter sido montado ontem a partir de uma foto tirada em 2019, em outro estado. Nada dentro do arquivo contradiz a versão apresentada.

As sete modalidades

1. Reutilização de imagem legítima

Fotos de danos reais, capturadas em sinistros anteriores ou de terceiros, apresentadas como o evento atual. A imagem é autêntica; o que é falso é o vínculo com o sinistro.

2. Adulteração digital do dano

Edição para acrescentar avarias que não existiam, ou ampliar as que existiam. Com as ferramentas atuais, o resultado é fotorrealista e não deixa sinal visível a olho nu.

3. Síntese por IA generativa

A cena inteira é gerada: um veículo danificado que nunca existiu. É a modalidade que domina o debate público, e ainda não é a mais frequente no setor.

4. Falsificação de metadados

Coordenadas e horários alterados para deslocar o evento no espaço ou no tempo — útil para encaixar um dano antigo dentro da vigência da apólice, ou para situá-lo onde o relato diz.

5. Recaptura de tela

Fotografar com o celular uma imagem exibida em outra tela. A foto nova é genuína enquanto arquivo, e o rastro da original se perde.

6. Substituição no canal de transmissão

A foto é capturada legitimamente e trocada durante o envio ao sistema da seguradora ou da gestora de sinistros. Sem vínculo criptográfico entre a captura e o recebimento, a troca não deixa rastro — e é por isso que autenticar no momento em que a foto é tirada cobre um trecho que a conferência na entrada do sistema não alcança.

7. Banco de imagens de fraude organizada

Grupos organizados mantêm bibliotecas de fotos de danos reais e escolhem, para cada perfil de veículo e tipo de sinistro declarado, a imagem que melhor encaixa. Análise de integridade da imagem não ajuda: o arquivo é tecnicamente íntegro, e falso apenas no contexto.

Fraude sintética e fraude de contexto

A distinção organiza a lista acima e muda onde vale investir. Fraude sintética é a criação de uma imagem falsa. Fraude de contexto é o uso de uma imagem inteiramente real numa situação falsa: a foto autêntica de um carro batido submetida em outro sinistro; a colisão de 2023 registrada como evento de 2026; o veículo de outra pessoa fotografado para acionar a apólice própria.

A segunda passa em qualquer verificação de integridade, porque a imagem é íntegra. O que é falso não está nos pixels: está na afirmação sobre quando, onde e por quem a foto foi tirada. Das sete modalidades, cinco são fraude de contexto.

Por que a detecção tradicional não alcança a fraude unitária

Os sistemas de detecção que as seguradoras já operam — análise comportamental, cruzamento de histórico, modelos sobre padrões de sinistro — são eficazes contra fraude repetitiva e redes organizadas, que deixam padrão. A fraude unitária, em que um segurado edita uma foto uma única vez, não deixa: o sinistro chega com documentação coerente, metadados plausíveis e dano compatível com o relato.

A perícia depois do fato também tem um limite estrutural. Ela trabalha com indícios — artefatos de compressão, ruído do sensor, consistência de sombras — e devolve uma probabilidade, não a origem do arquivo. Autenticar na captura muda a pergunta: em vez de inferir a origem a partir do que sobrou no arquivo, registra-se a origem no momento em que a foto é tirada.

O cenário internacional

No Reino Unido, a Association of British Insurers informou £1,16 bilhão em sinistros fraudulentos detectados em 2024, 2% acima de 2023, em 98.400 casos. Automóvel respondeu por 51.700 deles — 53% do total em quantidade — e £576 milhões em valor.

Nos Estados Unidos, a Coalition Against Insurance Fraud estimou, em estudo de 2022 que abrange todos os ramos, um custo anual de US$ 308,6 bilhões, equivalente a US$ 932,63 por pessoa e US$ 3.750,52 por família.

O custo que não aparece no valor comprovado

Autenticar na captura

A proposta do padrão C2PA inverte a ordem: em vez de tentar detectar adulteração depois, registra a origem no momento da captura. A foto sai do aplicativo com um manifesto assinado, que acompanha o arquivo e pode ser conferido por qualquer um, a qualquer momento. Trocar a imagem depois disso muda o resultado do cálculo que a acompanha, e a verificação acusa.

O registro separa o que foi conferido do que foi declarado

É essa separação que torna o material utilizável num laudo. Parte do que vai no manifesto é conferida pelo servidor antes de ser escrita: que o aparelho é o que diz ser, e que a captura veio de um aplicativo íntegro. Outra parte é declarada pelo aparelho e viaja sob a mesma assinatura — entre elas a localização, apurada a partir de GPS, rede e sensores, com divergência entre as fontes sinalizada. Saber qual é qual permite afirmar com a força certa em cada ponto, e é o que torna o laudo difícil de derrubar.

Recaptura de tela, e a defesa específica contra ela

Fotografar uma tela é o caso que a autenticação na captura, sozinha, não resolve: a foto da tela é, de fato, uma foto nova e legítima. Para ele existe no aplicativo uma defesa própria, que analisa padrões característicos de imagem reproduzida em tela e reduz o risco. É detecção por indício, com acerto alto — natureza diferente da conferência criptográfica do arquivo, e por isso somada a ela, não no lugar dela.

O que muda na operação de sinistros

Fontes

Dados conferidos nas fontes acima em 3 de outubro de 2026. Uma versão anterior deste texto circulou em PDF: versão em PDF.

Autentique no ponto de captura

Se a sua operação recebe fotos de vistoria ou de sinistro, podemos mostrar como fica o registro de origem de cada imagem.

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Leia também: por que os metadados de uma foto não provam de onde ela veio · o que é C2PA · perguntas frequentes sobre fraude em fotos, C2PA e ICP-Brasil.