Quem regula um sinistro decide a partir de fotos. É delas que parte a análise do ajustador, o laudo do perito e, no fim, o pagamento ou a negativa. Essa centralidade explica por que a imagem se tornou o ponto onde a fraude compensa: alterar uma foto custa minutos e não exige conhecimento técnico, enquanto conferi-la depois custa perícia, tempo e, muitas vezes, não chega a uma conclusão.
Os números do mercado brasileiro
A CNseg mantém desde 2004 o Sistema de Quantificação de Fraudes (SQF), alimentado pelas próprias seguradoras. O 23º Ciclo, referente ao 1º semestre de 2025, traz:
| Indicador | 1º semestre de 2025 | 1º semestre de 2024 |
|---|---|---|
| Sinistros ocorridos | ~R$ 22 bilhões | ~R$ 19,2 bilhões |
| Sinistros suspeitos | R$ 3,36 bilhões (15,1%) | R$ 2,3 bilhões (12%) |
| Fraudes comprovadas | R$ 734 milhões | R$ 504 milhões |
| Comprovadas sobre ocorridos | 3,3% | 2,6% |
O que este número mede, e o que ele não mede
Essa leitura é a parte que costuma se perder quando o valor viaja sozinho. Os R$ 734 milhões são fraude comprovada de todos os tipos, em todos os ramos cobertos pelo levantamento — que exclui Saúde Suplementar, Capitalização e Previdência Complementar. O relatório não decompõe o valor por vetor: não há, nele, uma linha que diga quanto da fraude passou por uma imagem adulterada.
Então o número não é o custo da fraude de imagem. Ele serve para outra coisa, e serve bem: mostra que a fração comprovada subiu de 2,6% para 3,3% dos sinistros em um ano, e que apenas 21,8% do que foi classificado como suspeito chegou a ser comprovado. A distância entre suspeitar e comprovar é exatamente o espaço em que a fraude por imagem opera.
O que se edita numa foto de sinistro
Um arquivo JPEG não carrega prova nenhuma sobre a própria origem. O nome do arquivo, a data gravada nos metadados EXIF e as coordenadas de GPS são campos de texto, editáveis em segundos com ferramentas gratuitas que já vêm instaladas na maioria dos sistemas.
As sete modalidades
1. Reutilização de imagem legítima
Fotos de danos reais, capturadas em sinistros anteriores ou de terceiros, apresentadas como o evento atual. A imagem é autêntica; o que é falso é o vínculo com o sinistro.
2. Adulteração digital do dano
Edição para acrescentar avarias que não existiam, ou ampliar as que existiam. Com as ferramentas atuais, o resultado é fotorrealista e não deixa sinal visível a olho nu.
3. Síntese por IA generativa
A cena inteira é gerada: um veículo danificado que nunca existiu. É a modalidade que domina o debate público, e ainda não é a mais frequente no setor.
4. Falsificação de metadados
Coordenadas e horários alterados para deslocar o evento no espaço ou no tempo — útil para encaixar um dano antigo dentro da vigência da apólice, ou para situá-lo onde o relato diz.
5. Recaptura de tela
Fotografar com o celular uma imagem exibida em outra tela. A foto nova é genuína enquanto arquivo, e o rastro da original se perde.
6. Substituição no canal de transmissão
A foto é capturada legitimamente e trocada durante o envio ao sistema da seguradora ou da gestora de sinistros. Sem vínculo criptográfico entre a captura e o recebimento, a troca não deixa rastro — e é por isso que autenticar no momento em que a foto é tirada cobre um trecho que a conferência na entrada do sistema não alcança.
7. Banco de imagens de fraude organizada
Grupos organizados mantêm bibliotecas de fotos de danos reais e escolhem, para cada perfil de veículo e tipo de sinistro declarado, a imagem que melhor encaixa. Análise de integridade da imagem não ajuda: o arquivo é tecnicamente íntegro, e falso apenas no contexto.
Fraude sintética e fraude de contexto
A distinção organiza a lista acima e muda onde vale investir. Fraude sintética é a criação de uma imagem falsa. Fraude de contexto é o uso de uma imagem inteiramente real numa situação falsa: a foto autêntica de um carro batido submetida em outro sinistro; a colisão de 2023 registrada como evento de 2026; o veículo de outra pessoa fotografado para acionar a apólice própria.
A segunda passa em qualquer verificação de integridade, porque a imagem é íntegra. O que é falso não está nos pixels: está na afirmação sobre quando, onde e por quem a foto foi tirada. Das sete modalidades, cinco são fraude de contexto.
Por que a detecção tradicional não alcança a fraude unitária
Os sistemas de detecção que as seguradoras já operam — análise comportamental, cruzamento de histórico, modelos sobre padrões de sinistro — são eficazes contra fraude repetitiva e redes organizadas, que deixam padrão. A fraude unitária, em que um segurado edita uma foto uma única vez, não deixa: o sinistro chega com documentação coerente, metadados plausíveis e dano compatível com o relato.
A perícia depois do fato também tem um limite estrutural. Ela trabalha com indícios — artefatos de compressão, ruído do sensor, consistência de sombras — e devolve uma probabilidade, não a origem do arquivo. Autenticar na captura muda a pergunta: em vez de inferir a origem a partir do que sobrou no arquivo, registra-se a origem no momento em que a foto é tirada.
O cenário internacional
No Reino Unido, a Association of British Insurers informou £1,16 bilhão em sinistros fraudulentos detectados em 2024, 2% acima de 2023, em 98.400 casos. Automóvel respondeu por 51.700 deles — 53% do total em quantidade — e £576 milhões em valor.
Nos Estados Unidos, a Coalition Against Insurance Fraud estimou, em estudo de 2022 que abrange todos os ramos, um custo anual de US$ 308,6 bilhões, equivalente a US$ 932,63 por pessoa e US$ 3.750,52 por família.
O custo que não aparece no valor comprovado
- Prêmio. A perda com fraude entra na tarifa, e quem paga é o segurado honesto.
- Investigação. Cada sinistro suspeito consome perícia, análise e tempo — e esse custo existe mesmo quando a suspeita não se confirma, que é o caso em quase 80% deles.
- Restrição de cobertura. Carteiras com índice alto de fraude ficam mais conservadoras na aprovação, e sinistros legítimos passam a demorar mais.
Autenticar na captura
A proposta do padrão C2PA inverte a ordem: em vez de tentar detectar adulteração depois, registra a origem no momento da captura. A foto sai do aplicativo com um manifesto assinado, que acompanha o arquivo e pode ser conferido por qualquer um, a qualquer momento. Trocar a imagem depois disso muda o resultado do cálculo que a acompanha, e a verificação acusa.
O registro separa o que foi conferido do que foi declarado
É essa separação que torna o material utilizável num laudo. Parte do que vai no manifesto é conferida pelo servidor antes de ser escrita: que o aparelho é o que diz ser, e que a captura veio de um aplicativo íntegro. Outra parte é declarada pelo aparelho e viaja sob a mesma assinatura — entre elas a localização, apurada a partir de GPS, rede e sensores, com divergência entre as fontes sinalizada. Saber qual é qual permite afirmar com a força certa em cada ponto, e é o que torna o laudo difícil de derrubar.
Recaptura de tela, e a defesa específica contra ela
Fotografar uma tela é o caso que a autenticação na captura, sozinha, não resolve: a foto da tela é, de fato, uma foto nova e legítima. Para ele existe no aplicativo uma defesa própria, que analisa padrões característicos de imagem reproduzida em tela e reduz o risco. É detecção por indício, com acerto alto — natureza diferente da conferência criptográfica do arquivo, e por isso somada a ela, não no lugar dela.
O que muda na operação de sinistros
- Triagem. Sinistros cujas fotos não tenham captura autenticada vão para revisão manual, e a análise se concentra onde não há registro de origem.
- Custo de investigação. A verificação responde em segundos se a foto saiu de uma captura autenticada e se mudou depois, o que reduz o volume que precisa de perícia.
- Contestação. O manifesto documenta a cadeia desde a captura, e a conferência pode ser refeita por terceiro a qualquer momento. No Brasil, documentos assinados com certificado ICP-Brasil têm, pela legislação, presunção de veracidade em relação a quem os assinou.
- Precificação. Exigir captura autenticada como condição de cobertura, ou considerá-la na precificação, cria incentivo para o segurado colaborar com a prevenção.
Fontes
- CNseg — 23º Ciclo do Sistema de Quantificação de Fraudes, 1º semestre de 2025. Abrange todos os ramos, exceto Saúde Suplementar, Capitalização e Previdência Complementar.
- Association of British Insurers — dados de fraude detectada em 2024.
- Coalition Against Insurance Fraud — The Impact of Insurance Fraud on the U.S. Economy, 2022.
Dados conferidos nas fontes acima em 3 de outubro de 2026. Uma versão anterior deste texto circulou em PDF: versão em PDF.
Autentique no ponto de captura
Se a sua operação recebe fotos de vistoria ou de sinistro, podemos mostrar como fica o registro de origem de cada imagem.
Falar com a Provvi →Leia também: por que os metadados de uma foto não provam de onde ela veio · o que é C2PA · perguntas frequentes sobre fraude em fotos, C2PA e ICP-Brasil.